Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, analisa que as enchentes deixaram de ser eventos que chamam atenção apenas durante os períodos de chuva intensa. Nos últimos anos, diferentes regiões do Brasil enfrentaram episódios que provocaram prejuízos econômicos, interrupções em serviços essenciais e impactos significativos para milhões de pessoas. As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo, reforçaram uma percepção que vem ganhando força entre especialistas: em muitos casos, o problema vai muito além do volume de chuva registrado.
Embora os fenômenos climáticos tenham papel importante nesses acontecimentos, cresce a compreensão de que fatores como ocupação urbana, planejamento territorial e capacidade de resposta da infraestrutura também influenciam diretamente os impactos observados. Nesse contexto, a discussão sobre drenagem urbana e infraestrutura ambiental tornou-se cada vez mais relevante para cidades que buscam se preparar para uma realidade marcada por eventos climáticos mais intensos e frequentes.
As chuvas mudaram ou as cidades mudaram mais rápido?
Sempre que grandes enchentes ocorrem, é comum que o foco das discussões recaia sobre os índices pluviométricos. De fato, eventos extremos vêm sendo registrados com maior frequência em diversas regiões do mundo. No entanto, limitar a análise apenas ao comportamento do clima pode impedir uma compreensão mais ampla do problema.
Ao mesmo tempo, as cidades brasileiras passaram por profundas transformações nas últimas décadas. O crescimento populacional, a expansão urbana acelerada e a ocupação de novas áreas modificaram significativamente a forma como a água circula nos ambientes urbanos. Como consequência, locais que antes absorviam parte das chuvas deram lugar a superfícies impermeáveis, aumentando a velocidade do escoamento e elevando os riscos de alagamentos.
Qual é o papel da drenagem urbana nesse cenário?
A drenagem urbana tem a função de captar, conduzir e controlar o fluxo das águas pluviais dentro das cidades. Quando esse sistema funciona de forma adequada, ele ajuda a reduzir riscos de alagamentos e minimiza impactos provocados por chuvas intensas. Contudo, muitas estruturas existentes foram projetadas para uma realidade urbana bastante diferente da atual.
Segundo Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, um dos desafios enfrentados pelos municípios está justamente na necessidade de adaptar suas estruturas a novos padrões climáticos e urbanos. Além disso, a ampliação da infraestrutura precisa ser acompanhada por estratégias de planejamento que considerem o crescimento futuro das cidades. Caso contrário, os investimentos podem se tornar insuficientes em poucos anos.
O planejamento urbano influencia os impactos das enchentes?
A forma como uma cidade cresce exerce influência direta sobre sua vulnerabilidade a eventos extremos. Quando áreas sujeitas a alagamentos são ocupadas sem planejamento adequado, os riscos tendem a aumentar. Da mesma forma, a redução de áreas verdes e a impermeabilização excessiva do solo dificultam a absorção da água da chuva.
Nesse contexto, Marcello José Abbud destaca que o planejamento urbano deve ser encarado como uma ferramenta de prevenção. Mais do que organizar a expansão das cidades, ele contribui para reduzir riscos e aumentar a capacidade de adaptação diante de desafios climáticos cada vez mais complexos.
O que as enchentes recentes ensinaram aos municípios?
Os eventos registrados nos últimos anos demonstraram que ações emergenciais, embora necessárias, não são suficientes para enfrentar problemas estruturais. As enchentes expuseram fragilidades relacionadas à infraestrutura, ao monitoramento de riscos e à ocupação do território. Por esse motivo, muitas cidades passaram a revisar estratégias voltadas à prevenção e à resiliência urbana.

De acordo com Marcello José Abbud, uma das principais lições deixadas por esses episódios é a importância da antecipação. Quanto mais cedo vulnerabilidades são identificadas, maiores são as possibilidades de reduzir prejuízos humanos, ambientais e econômicos. Dessa forma, investir em prevenção tende a ser mais eficiente do que concentrar esforços apenas na reconstrução após os desastres.
Como a infraestrutura ambiental pode ajudar?
A infraestrutura ambiental envolve um conjunto de soluções capazes de aumentar a capacidade das cidades de lidar com desafios relacionados à água, resíduos e sustentabilidade. Nesse grupo estão sistemas de drenagem, áreas de retenção, recuperação ambiental e tecnologias voltadas ao monitoramento e gestão dos recursos naturais.
Marcello José Abbud avalia que fortalecer a infraestrutura ambiental é uma das estratégias mais importantes para tornar os municípios mais resilientes. Além disso, soluções integradas permitem que as cidades reduzam riscos sem comprometer seu desenvolvimento econômico e urbano. Essa visão vem ganhando espaço à medida que eventos extremos deixam de ser exceções e passam a fazer parte do planejamento de longo prazo.
O futuro exige mais prevenção do que reação!
As enchentes que marcaram o Brasil nos últimos anos mostraram que atribuir todos os problemas apenas à intensidade das chuvas é uma simplificação de uma realidade muito mais complexa. Embora fatores climáticos sejam importantes, os impactos observados também refletem decisões relacionadas ao crescimento urbano, à infraestrutura disponível e à capacidade de planejamento das cidades.
Sob essa perspectiva, Marcello José Abbud conclui que os desafios do futuro exigirão uma combinação entre planejamento urbano, infraestrutura ambiental e gestão preventiva. Afinal, cidades que investem em adaptação e resiliência tendem a estar mais preparadas para enfrentar uma realidade climática cada vez mais desafiadora.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
